Um grão de semente contém em si os princípios de uma dupla viagem: da raíz que se fundamenta na terra, do tronco que conquista o céu. Uma mão sobre uma folha de papel vazia procura o encontro nesses espaços em branco...

terça-feira, 12 de maio de 2009

Olhares Convergentes - 3

3. Raízes no futuro: uma prática em construção

«(…) a demonstrar que a marca real do homem é o seu espírito de criatividade, na ciência ou na política no sonho ou na arte, na religião ou na técnica; que é pelo imaginar que somos à semelhança do criador padrão, quer o tomemos deus ou homem; e que é nosso primeiro dever quebrar tudo o que pode impedir, inclusive a grade dos andaimes sempre necessários para que o novo edifício se construa e erga»
AGOSTINHO DA SILVA

As organizações de serviços sociais, não lucrativas, absorvem cerca de 48% da força do trabalho do sector da sociedade civil (média de 20% para os países onde existem dados, 22% nos países desenvolvidos) assumindo uma proeminência em Portugal maior do que em qualquer outro país. Por outro lado, essas organizações desempenham, em Portugal, um papel importante ao nível dos serviços sociais possuindo uma rede de equipamentos e valências que não deve ser descurado. Por isso, às organizações de serviços sociais, não lucrativas e às Misericórdias em específico, deve ser reconhecido o extraordinário papel que podem desempenhar nos desafios de reforço da coesão social e do combate à exclusão.

Num desenvolvimento humano mais harmonioso, as Misericórdias podem (re)assumir um papel preponderante desde logo pelo reforço da atenção individualizada a cada um dos seus beneficiários num quadro de um apoio social aos mais carenciados. Outra lógica que podem recuperar da sua longa tradição é o assumirem o seu papel de elo de ligação entre o poder central e as necessidades locais das populações a que prestam apoio.

O seu carácter paternalista e assistencialista, muitas vezes criticado, pode ser reconfigurado com a conciliação do rigor da aplicação dos métodos da gestão económica com a produção de bens e serviços de âmbito social. A este nível refira se como um bom exemplo o facto de cerca de 18% das empresas de inserção terem tido como suporte base as Misericórdias /Mutualidade (PAIVA; 2006:68) o que demonstra bem o seu potencial inovador e criativo. Por outro lado, as Misericórdias possuem uma rede de equipamentos das mais diversificadas modalidades e valências que comprovam a actualidade da sua atenção e a consequente necessidade de diversificação dos serviços (e veja-se aqui o bom exemplo da Misericórdia de Penafiel que possui 3 Lares de Terceira Idade, Serviço de Apoio Domiciliário, Centro de Dia, Centro de Convívio, 2 Jardins de Infância e Creches, ATL, Gabinete do Rendimento Social de Inserção, Albergaria e Museu de Arte Sacra, notando-se neste último a vontade de privilegiar a cultura como outro factor de desenvolvimento humano) .

Assiste-se hoje a uma mudança de paradigma na assistência social sustentada por novos princípios: de eficácia social da inserção dos excluídos no mercado de trabalho e da luta contra a pobreza; de dimensão ecológico-ambiental com a noção de pertença a uma mesma Terra; de promoção da cidadania e da participação. Tais lógicas suportam a construção de um modelo que cruza os princípios de democracia, autonomia e liberdade subjacentes à solidariedade como lógica de inclusão.

Em todas as religiões e todas as crenças humanistas exige-se que cada um de nós assuma a responsabilidade pelo bem-estar de todos. A misericórdia é assim uma condição para uma verdadeira sintonia e harmonia das múltiplas identidades humanas. É também valor de uma ética que nos impele para o amor recíproco, para o entendimento mútuo, para que todos tenham um tratamento com dignidade e respeito. Essencial ao desenvolvimento humano, a prática da misericórdia deve ser, assim, algo a perpetuar no futuro.

Bibliografia:

FONSECA, Carlos Dinis, História e Actualidades das Misericórdias, Mem Martins, Editorial Inquérito, 1996,
393 pp

FRANCO, Raquel, (coord.), O Sector Não Lucrativo Português numa Perspectiva Comparada, Porto, Universidade Católica Portuguesa & Johns Hopkins University, 2005, 41 pp

PAIVA, Júlio, Pobreza, Exclusão, Desemprego e Empresas de Inserção em Portugal, Porto, REAPN, 2006, 155pp

SÁ, Isabel dos Guimarães, Quando o rico se faz pobre: Misericórdias, caridade e poder no império português 1500-1800, Lisboa, Comissão para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1997, 319 pp

SILVA, Agostinho, Escola Nova, in Vida Mundial, Lisboa, 2 de Junho de 1972, pp 48-49

VICENTE, Gil, Auto da Barca do Inferno, Porto, Porto Editora, 1981, 134 pp

Sem comentários: