Um grão de semente contém em si os princípios de uma dupla viagem: da raíz que se fundamenta na terra, do tronco que conquista o céu. Uma mão sobre uma folha de papel vazia procura o encontro nesses espaços em branco...

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Das mãos de deus tudo aceito, mas que morra em Portugal [Da Gaiola Dourada]


Conheço aquele retrato mais pelo lado final: o dos reencontros no Verão quando vinham de férias: a língua portuguesa salpicada de francesismos, as festas na aldeia, os casamentos, agora os baptizados.

O realizador presta um excelente homenagem aos emigrantes ao mesmo tempo que faz renascer o género comédia no cinema português, porque embora de produção francesa, Gaiola Dourada é imensamente nosso. Não é de espantar. Ruben Alves conhece bastante melhor esse retrato e, com uma seriedade que só o humor permite, filma-o sem pudor nenhum de mostrar clichés: os honestíssimos e competentíssimos trabalhadores portugueses emigrantes em França (em trabalhos de ménage e na construção civil) com o seu bacalhau e o seu gosto pelo Futebol - "só há um único português, que não gosta de futebol e tinha logo de ser meu filho" mas mesmo assim uma bola perdida é resgatada pelo Pauleta. E também sardinhas assadas. E bons carros. E confusão com Espanha. E há os filhos com vergonha dos pais. E há a Linda de Suza em fundo musical e uma nota mais recente com Rodrigo Leão. E há ainda lugar para os Pastorinhos emoldurados na parede. E há sobretudo esse desejo-saudade de um dia regressar e construir a sua casa em Portugal

E desse fado e desse lugar de não pertença a lugar a nenhum (porque a identidade se fez e se faz nos dois países) nasce a esperança: "ao menos este [o neto] vai nascer em Portugal. Porque numa Casa Portuguesa acaba sempre tudo bem, com certeza!

domingo, 11 de novembro de 2012

O Consul de Bordéus (lembrar um herói)

O filme começa titubeante e talvez nunca ganhe o fôlego que o herói retratado mereceria (Vitor Norte só consegue salvar-se quando mostra a  sua humanidade através dos momentos de humor).

Estrutura ficcional verosímil, feedback narrativo bem construído, boa reconstituição de  época, banda sonora não demasiadamente efusiva e por isso apropriada. Mas mesmo quando não é cinematograficamente muito bom, um filme pedagógico pode ser interessante para o conhecimento público da personalidade que retrata.

Aristides de Sousa Mendes, o Cônsul de Bordéus, decidiu agir de acordo com a sua consciência de bem e de valor da vida humana salvando quem o procurava. Como pagamento dos seus actos recebeu a miséria. Mais miseráveis somos nós quando, enquanto povo, abandonamos os nossos heróis.