Pedes-me um tempo,
para balanço de vida.
Mas eu sou de letras,
não me sei dividir.
Para mim um balanço
é mesmo balançar,
balançar até dar balanço
e sair..
Pedes-me um sonho,
para fazer de chão.
Mas eu desses não tenho,
só dos de voar.
Agarras a minha mão
com a tua mão
e prendes-me a dizer
que me estás a salvar.
De quê?
De viver o perigo.
De quê?
De rasgar o peito.
Com o quê?
De morrer,
mas de que paixão?
De quê?
Se o que mata mais é não ver
o que a noite esconde
e não ter
nem sentir
o vento ardente
a soprar o coração...
Pedes o mundo
dentro das mãos fechadas
e o que cabe é pouco
mas é tudo o que tens.
Esqueces que às vezes,
quando falha o chão,
o salto é sem rede
e tens de abrir as mãos.
Pedes-me um sonho
para juntar os pedaços
mas nem tudo o que parte
se volta a colar.
E agarras a minha mão
com a tua mão e prendes-me
e dizes-me para te salvar.
De quê?
De viver o perigo.
De quê?
De rasgar o peito.
Com o quê?
De morrer,
mas de que paixão?
De quê?
Se o que mata mais é não ver
o que a noite esconde
e não ter
nem sentir
o vento ardente
a soprar o coração.
a versão musicada deste poema - nas vozes de Mafalda Veiga e Tiago Bettencort - pode ser encontrada aqui
Um grão de semente contém em si os princípios de uma dupla viagem: da raíz que se fundamenta na terra, do tronco que conquista o céu. Uma mão sobre uma folha de papel vazia procura o encontro nesses espaços em branco...
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segunda-feira, 15 de março de 2010
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
Nós somos
Como uma pequena lâmpada subsiste
e marcha no vento, nestes dias,
na vereda das noites, sob as pálpebras do tempo.
Caminhamos, um país sussurra,
dificilmente nas calçadas, nos quartos,
um país puro existe, homens escuros,
uma sede que arfa, uma cor que desponta no muro,
uma terra existe nesta terra,
nós somos, existimos
Como uma pequena gota às vezes no vazio,
como alguém só no mar, caminhando esquecidos,
na miséria dos dias, nos degraus desconjuntados,
subsiste uma palavra, uma sílaba de vento,
uma pálida lâmpada ao fundo do corredor,
uma frescura de nada, nos cabelos nos olhos,
uma voz num portal e a manhã é de sol,
nós somos, existimos.
Uma pequena ponte, uma lâmpada, um punho,
uma carta que segue, um bom dia que chega,
hoje, amanhã, ainda, a vida continua,
no silêncio, nas ruas, nos quartos, dia a dia,
nas mãos que se dão, nos punhos torturados,
nas frontes que persistem,
nós somos,
existimos.
António Ramos Rosa
in «Sobre o Rosto da Terra» 1961
Antologia Poética, Dom Quixote, 2001
(uma versão musicada por Tiago Bettencourt com declamação de Dalida Carmo, pode ser encontrada aqui)
e marcha no vento, nestes dias,
na vereda das noites, sob as pálpebras do tempo.
Caminhamos, um país sussurra,
dificilmente nas calçadas, nos quartos,
um país puro existe, homens escuros,
uma sede que arfa, uma cor que desponta no muro,
uma terra existe nesta terra,
nós somos, existimos
Como uma pequena gota às vezes no vazio,
como alguém só no mar, caminhando esquecidos,
na miséria dos dias, nos degraus desconjuntados,
subsiste uma palavra, uma sílaba de vento,
uma pálida lâmpada ao fundo do corredor,
uma frescura de nada, nos cabelos nos olhos,
uma voz num portal e a manhã é de sol,
nós somos, existimos.
Uma pequena ponte, uma lâmpada, um punho,
uma carta que segue, um bom dia que chega,
hoje, amanhã, ainda, a vida continua,
no silêncio, nas ruas, nos quartos, dia a dia,
nas mãos que se dão, nos punhos torturados,
nas frontes que persistem,
nós somos,
existimos.
António Ramos Rosa
in «Sobre o Rosto da Terra» 1961
Antologia Poética, Dom Quixote, 2001
(uma versão musicada por Tiago Bettencourt com declamação de Dalida Carmo, pode ser encontrada aqui)
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António Ramos Rosa,
Tiago Bettencourt
quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
A Pausa
O relógio aqui ao lado a mexer ininterruptamente os seus ponteiros (tal como um série de amigos/as que se queixa neste início do ano de não conseguir parar). Devíamos poder fazer um pausa Kit-Kat ou então fazer mesmo o tempo de pausa, o tempo de espera de que fala o Tiago Bettencourt
Em todas as casas
no escorrer das paredes
há um tempo de espera.
à espera de quê?
em todos os dias
por trás das horas
há um tempo de espera
à espera para quê?
tudo parado, entorpecido
tudo não anda
porquê?
a areia no chão
o vento dormente
o ar inquieto...
a ideia de acontecer
... a pausa
Tiago Bettencourt
Em todas as casas
no escorrer das paredes
há um tempo de espera.
à espera de quê?
em todos os dias
por trás das horas
há um tempo de espera
à espera para quê?
tudo parado, entorpecido
tudo não anda
porquê?
a areia no chão
o vento dormente
o ar inquieto...
a ideia de acontecer
... a pausa
Tiago Bettencourt
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