Um grão de semente contém em si os princípios de uma dupla viagem: da raíz que se fundamenta na terra, do tronco que conquista o céu. Uma mão sobre uma folha de papel vazia procura o encontro nesses espaços em branco...

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Os 726!


Na verdade, não lhes sei o nome e por isso chamo-lhes assim: os 726. Chamo-lhes assim porque temos isso em comum: de manhã, todos apanhamos o autocarro 726 em Lisboa, eu no percurso Laranjeiras – Av. Duque d’ Ávila.

O ‘Sete’ é o mais discreto de todos. Aliás, só dei conta dele numa viagem em que falava para alguém atrás de mim sobre um qualquer assunto de trabalho. Percebi-lhe um rosto envelhecido contrariando aquilo que penso ser a esperança de vida para uma pessoa com Síndrome de Down. Pergunto-me se ainda terá cuidador(es), se é independente…

Minto. Sei o nome do ‘Seis’. Chama-se Rui como eu. Posiciona-se sempre na frente do autocarro, ao lado do ou da motorista. Fala alto sobre as coisas nenhumas do quotidiano e foi assim que lhe ouvi o nome. Interrogo-me se o interesse dos motoristas é genuíno, se é envolto em condescendência ou se é uma mistura dos dois.

A ‘Dois’ é claramente a estrela deste diário. É uma pequena empertigada: sempre que se senta as suas pernas ficam a balançar no resto do ar que lhe sobra até ao chão. Mas nunca perde a postura altiva!! Tem uma obsessão pelo assento do primeiro banco do lado direito do corredor da parte de trás do autocarro. É notório o seu desconforto e incómodo quando esse lugar está ocupado. E quando, no momento de entradas e saídas, o lugar vaga, é vê-la partir, sempre com a sua altivez não decomposta, à conquista! 

Certa vez, o motorista, devido ao muito trânsito, facilitou a saída dos passageiros parando o autocarro a uns 2 metros da paragem. Pois ela, obrigou-o a parar novamente – no sítio certo! – para poder sair. Imagino que alguém a instruiu «Sentas-te aqui», «Sais acolá» e ela agora não condescende em nada menos do que isso. Houve alguns (poucos) comentários de desagrado, mas eu fiquei-me a rir por dentro. Não sei onde trabalha, ou mesmo se trabalha, mas imagino que essa obsessão a torna uma excelente profissional daquelas que tem como critério de exigência nada menos do que a perfeição.

Somos todos pessoas comuns, desconhecidos uns dos outros, que por mero acaso apanhamos a mesma carreira de autocarro e que por isso nos encontramos, às vezes. Volto a mentir. Eu sou comum. O ‘Sete’, o ‘Seis’ e a ‘Dois’ são extraordinários. Só pessoas extraordinárias nos deixam um tão bom sentimento!

(Sigo à distância – apenas física – o caminho do Miki e da Joana, de quem me orgulho chamar amigos. Este texto é–lhes dedicado pelo exemplo de família integradora que constroem todos os dias)


Foto tirada hoje de manhã do lugar da 'Dois' vendo-se ao fundo o 'Seis'


terça-feira, 4 de abril de 2017

12 de Maio de 1982

Na televisão - ainda a preto e branco – a imagem de uma escada a encostar ao avião por onde momentos depois desceria João Paulo II para a sua primeira visita a Portugal. Uma voz mandava-me despachar para não nos atrasarmos. Porquê? Porque a nossa alegria estava centrada noutro momento, noutro local: no Hospital de Leiria, no nascimento do Primo João. Era preciso partir para ir vê-lo.

Por termos quase 10 anos de diferença, tive a GRAÇA de poder acompanhá-lo no seu crescimento: o menino de cabelos encaracolados que posava no Jardim de Infância para uma fotografia imortalizada na cómoda da avó Inácia; o menino curioso que me pedia para lhe ler os almanaques da Disney e que, inventava ele próprio as histórias quando eu não estava (mesmo não sabendo ler); a criança que nos entusiasmava com a sua consola e os jogos do Super Mário; a criança que fazia brincadeiras coreografadas com irmã Mariana e a prima Tânia; o rapazinho que se empoleirava comigo e com outros primos numa árvore no Valdeira; o rapazinho com quem não partilhava o gosto pelos Transformers e pelas Tartarugas Ninja mas que, mais tarde, viria a ser fã – como eu – dos Ficheiros Secretos.

Depois o João cresceu. O João cresceu em SABEDORIA. Procurei transmitir-lhe os meus poucos conhecimentos de solfejo. Era tão ávido por aprender que até queria que a mãe Bélita  - que é contabilista - lhe desse explicações de música. O João agarrou nisso tudo e descobriu-se num amor enorme à Filarmónica do Soutocico.

Depois o João cresceu mais um pouco. O João cresceu em ESTATURA: o João já ia ao cinema comigo, o João já ia concertos comigo, o João já saía comigo à noite para ir beber um copo a um qualquer bar em Leiria (Primos, lembram-se de irmos jogar Genga?).  O João já chegava tarde a casa e por isso o João já ouvia raspanetes dos pais. Um pouco mais a seguir e o João já estava na Universidade. E o João já fumava e eu já lhe cravava cigarros. Enviei-lhe uma t-shirt da ilha do Pico quando morava Açores. E arranjava-lhe copos de cerveja para a sua colecção. De permeio, ainda fomos juntos, algumas vezes, à Festa do Avante e arranjámos tempo para irmos aprender a dançar mazurga no Festival Andanças.

O João cresce distraído: esquece-se do casaco nos autocarros quando regressa da escola e obriga o pai Lelo a pegar no carro e ir atrás da carreira para recuperar os seus esquecimentos. Deve ter sido esse ar que, anos mais tarde, os meliantes em Lisboa se aproveitaram para o assaltarem algumas vezes. O João tem esse ar despreocupadamente interessado nas coisas, de quem passa pela vida centrado naquilo que é verdadeiramente importante.

Quando escrevi uma história editada em livro, o João entusiasmou-se comigo no Porto. Mais tarde seria eu a entusiasmar-me com ele e com o seu casamento com a Andreia e esse amor fecundo concretizado na Matilde. Em Lisboa dizia-lhe: «Caramba João, já és pai!»

Ainda há pouco, falámos de quanto humor a vida pode ter: eu a mudar-me para Lisboa por motivos profissionais, ele a regressar de Lisboa a Leiria com esse sentido responsável de quem queria dar mais qualidade de vida à sua família.

“The King and Me” de Benny Goodman é a música que me foi apresentada pelo João quando lhe pedi que me arranjasse um fundo musical para o conto infantil «João e a galinha». Escrevi mas a história é inteiramente dele: quem mais que o João para se lembrar de curar as enfermidades da galinha da Tia Lúcia através de solos de clarinete tocados a partir do terraço de casa dos seus pais? "The King and Me" é a música que tenho no telemóvel como toque de chamada, desde então. Agora será também aí que estarás sempre comigo, primo João!

No Domingo, 2 de Abril de 2017, deram-me a conhecer um lugar tenebroso, frio, terrível, escuro, e muito, muito doloroso. Agora sei que tenho alma. Agora sei que tenho alma porque me a arrancaram. A dor é tão profunda que parece vencer tudo: os abraços em que nos apertamos, as mãos que nos damos, os gritos que calamos, os silêncios em que explodimos.Mas houve um momento, um momento tão breve quanto a eternidade, tão pequenino quanto o infinito em que o João me confortou estendendo a sua mão sobre a minha face. A dor nunca passará. Mas o João falou-me que um dia esse lugar terá uma luz tão brilhante e tão intensa que nos poderemos voltar a unir para voltar a celebrar a alegria da vida.


(a foto foi tirada em Setembro de 2004 num jantar de aniversário / inauguração da minha casa no Porto)

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Tu não és velha! És Vintage



Há um encontro entre dois lutadores pela liberdade numa prisão, depois numa casa na Costa do Castelo, depois num baile do Mercado da Ribeira, depois numa urna de cinzas. Porque é um encontro de uma vida.

Há um encontro com um país em protesto e afinal ainda em resistência: «Mãe, tu já és velha para andares nestas coisas. Há um encontro com o egoísmo e a ganância: «Mas porque é que a tua mãe não morre como toda a gente?!»

Há o encontro com os gatos! Os que pululam nos telhados e de quem só vamos ouvindo os miados. E com os que, abandonados, rejeitados e destruídos pela própria família, procuram escapar à vertigem negativa em que a vida os colocou relembrando os resquícios de honestidade que ainda mantêm:«Não me pode dar o caderno, porque se não eu não volto».

Há o encontro com o destino clandestino do fado na voz de Ana Moura. Há o encontro [homenagem] com o cinema português: com Joaquim Leitão e Tino Navarro que surgem fugazmente; com o habitual cameo de António-Pedro Vasconcelos; com a estreia enérgica de João Jesus e com o papel brilhantemente sereno de Maria do Céu Guerra. 

E há o encontro vitorioso sobre a solidão: «Tu voltas, porque de todos os terraços de Lisboa e do mundo, tu foste escolher o meu”.



sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

A noite escura da escravatura



As chamas consomem lentamente a esperança enquanto o ecran se vai fechando em negro.


Há uma noite escura que nos aperta neste filme… quando as pás do barco esventram o rio e prenunciam a perda de liberdade…quando se percebe que manter a dignidade enquanto  ser humano  não restitui a liberdade…quando alguém presume que essa dignidade é sua propriedade… quando a loucura invade a todos na maldade perversamente mascarada de gestos simpáticos de uma mulher arrogante no despeito a que é votada pelo marido. Porque no meio dessa loucura organizam-se bailes, oferecem-se bolos, arrancam-se carnes com chicotadas, acompanha-se a despedida de uma alma com Roll Jordan Roll…


Em Django unchained Tarantino retrava o tema com um humor absurdo e violento. Em 12 Years a Slave Steven McQueen retrata a escravatura na sua forma mais nua, crua e…negra! 


E infelizmente essa é uma realidade que continua presente nos nossos dias ainda que sob outras formas. E para abandonar a sombra que teima em fazer cair sobre si própria, a humanidade tem ainda um longo caminho a percorrer.


sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Não chegaste a dar-me um beijo, Júlia do Areeiro


Não me importa discutir isso... essa coisa da ligação entre o homem e o seu bicho

«Ela era quase humana» dizia ele.«Tinha coisas de pessoa» reforçava.

Pois que seja então

A mim importa-me mais aquele calor sentido no fundo de um abraço quando a tristeza o apequenou.
Tão pequeno que estava. Tão indefeso que parecia.

Não, não era eu que me agigantava mas de facto sentia-me enorme por ele me caber todo na minha mão, e eu quase esmagado com a responsabilidade daquela missão, com o ganhar consciência de que era em ele que eu verdadeiramente vivia. De que eu verdadeiramente vivo.

(e agora tenho mais um anjo, esta no Céu dos Animais. Não me chegaste a dar um beijo, Júlia do Areeiro)

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Das mãos de deus tudo aceito, mas que morra em Portugal [Da Gaiola Dourada]


Conheço aquele retrato mais pelo lado final: o dos reencontros no Verão quando vinham de férias: a língua portuguesa salpicada de francesismos, as festas na aldeia, os casamentos, agora os baptizados.

O realizador presta um excelente homenagem aos emigrantes ao mesmo tempo que faz renascer o género comédia no cinema português, porque embora de produção francesa, Gaiola Dourada é imensamente nosso. Não é de espantar. Ruben Alves conhece bastante melhor esse retrato e, com uma seriedade que só o humor permite, filma-o sem pudor nenhum de mostrar clichés: os honestíssimos e competentíssimos trabalhadores portugueses emigrantes em França (em trabalhos de ménage e na construção civil) com o seu bacalhau e o seu gosto pelo Futebol - "só há um único português, que não gosta de futebol e tinha logo de ser meu filho" mas mesmo assim uma bola perdida é resgatada pelo Pauleta. E também sardinhas assadas. E bons carros. E confusão com Espanha. E há os filhos com vergonha dos pais. E há a Linda de Suza em fundo musical e uma nota mais recente com Rodrigo Leão. E há ainda lugar para os Pastorinhos emoldurados na parede. E há sobretudo esse desejo-saudade de um dia regressar e construir a sua casa em Portugal

E desse fado e desse lugar de não pertença a lugar a nenhum (porque a identidade se fez e se faz nos dois países) nasce a esperança: "ao menos este [o neto] vai nascer em Portugal. Porque numa Casa Portuguesa acaba sempre tudo bem, com certeza!

domingo, 11 de novembro de 2012

O Consul de Bordéus (lembrar um herói)

O filme começa titubeante e talvez nunca ganhe o fôlego que o herói retratado mereceria (Vitor Norte só consegue salvar-se quando mostra a  sua humanidade através dos momentos de humor).

Estrutura ficcional verosímil, feedback narrativo bem construído, boa reconstituição de  época, banda sonora não demasiadamente efusiva e por isso apropriada. Mas mesmo quando não é cinematograficamente muito bom, um filme pedagógico pode ser interessante para o conhecimento público da personalidade que retrata.

Aristides de Sousa Mendes, o Cônsul de Bordéus, decidiu agir de acordo com a sua consciência de bem e de valor da vida humana salvando quem o procurava. Como pagamento dos seus actos recebeu a miséria. Mais miseráveis somos nós quando, enquanto povo, abandonamos os nossos heróis.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Deve ser verdade essa história dos anjos...[in memoriam]

Partiu a minha avó Teresa ...

Na despedida de um amigo comum, Vasco Pinto Magalhães, sj., referiu que quando alguém próximo falecia era um anjo que ganhávamos no céu e por isso tinhamos de dar graça.

Não me recordo de ser muito próximo desta minha avó. Mas nos últimos anos ela questionava-me muito sobre o facto de, por vezes, nos darmos tanto a outras pessoas esquecendo-nos das que nos são familiares. Por isso - e porque o amor também se aprende! - obriguei-me a visitá-la: primeiro passeávamos de cadeira de rodas; quando já não havia essa possibilidade passámos a conversar na cadeira de salão, aprendendo a gostar dessas nossas conversas repetitivas sobre o mesmo; depois, quando já não havia conversa e nem reconhecimento da minha pessoa, apercebi-me do calor das nossas mãos dadas; depois, quando já não havia calor aprendi a gostar de lhe afagar o cabelo e de permanecermos em silêncio. E quando a serenidade eterna a invadiu adivinhei-lhe um encontro tranquilo com o meu avô.

E eu cá fiquei no envolvimento daqueles enormes braços. Talvez seja verdade essa história dos anjos ...




quinta-feira, 23 de agosto de 2012

História de um jantar [como a confiança se pode traduzir numa grande lata]


Já éramos vizinhos sem nos conhecermos. Depois fomos colegas de trabalho. Depois construimos uma amizade daquelas em que se dá a chave de casa para vir cá, primeiro, tratar do gato-tigre André, segundo, para vir regar as plantas,

Ao fim de tantos era mais do que merecido um jantar. Compras de última hora, ok são 18 euros e qualquer coisa, ok as coisas têm de ficar cá porque a carteira ficou no trabalho.

Cancela-se jantar? Não me parece. Tenta-se  levantar dinheiro com a caderneta a desuso há anos e sem me lembrar do código enquanto a máquina actualiza 89 movimentos.

Solução? Ok, liga-se à convidada Cristina e pede-se dinheiro. Caramba! Afinal ela até está no café ao lado do supermercado.

(No entretanto, pensa-se sugerir ao senhor Jerónimo Martins que ressuscite o livro de fiado: respeito de quem vende por quem tem dificuldades, lealdade de quem compra e se compromete a regularizar a situação logo que se possa. Não é isto também confiança?).

Voltando à história e à pressa a casa para à hora marcada estar tudo mais ou menos comme il faut.  Só podia entrar com o NIB para lhe fazer a transferência mas passou-me a rasteira de aparecer quando a massa começava a cozer.

Pelo meio ainda deu tempo para o Hallelujah de  Haendel na versão dos Malibu Monks
(se forem ouvir passem logo para o minuto 2:04)

Claro que a amizade prossegue. E é tudo muito bonito e muito azul e cor-de rosa e blá blá blá.... Mass é preciso ter um grande descaramento e não ter vergonha na cara para obrigar a convidada a financiar o jantar.

sábado, 14 de julho de 2012

A menina-princesa

A menina princesa tinha um nome:
menina-princesa.

Na lua triste morava um menino-rapaz

No meio um universo por preencher.

A menina atirou um sorriso feito de tranças

O menino lançou um olhar

terça-feira, 8 de maio de 2012

Fazer vida mesmo depois de uma certa idade [O Exótico Hotel Marigold]


Há um olhar de prenúncio de eternidade mesmo antes de uma ave branca levantar voo. Num filme sobre a terceira idade como não falar da morte? “Era inevitável que reunindo tantos velhos num mesmo lugar ela chegasse”, dirá uma das personagens...

Esse lugar fala de liberdade. Angustiado pela desgraça que fez cair sobre Manoj em adolescente, Graham [Tom Wilkinson] passou a vida a adiar os seus problemas cardíacos. No reencontro dos dois, percebe que a vida continuou sem  mágoa e por isso já pode partir.

Esse lugar também fala de verdade:-
- não escondendo a ligação a Graham, Manoj construiu com uma mulher uma relação de cumplicidade;
- . Evelyn [Judi Dench] busca a verdade agora no estado de viuvez: não  quer nova relação de dependência (personificada no filho) e parte para paragens distantes onde até se reconstrói como trabalhadora antes de descobrir novo amor;
- Jean Ainslie [Penelope Wilton] Douglas Ainslie [Bill Nighy] procuram o caminho agora que estão reformados: o conforto de uma residência senior – que até tem botão de alarme! – ou alojamento supostamente de luxo numa Índia distante? O hotel não é o que esperavam mas enquanto Douglas se reiventa em trabalhos manuais, Jean opta por virar à esquerda – para a primeira classe – e regressar. Não sem antes assumir a verdade do fim da relação e libertar Douglas;
-  Madge  e Norman [Celia Imrie eRonald Pickup]  apimentam o grupo com o seu pudor – ou falta dele – lembrando que qualquer idade tem direito ao prazer;
- Muriel – a sempre magistral Maggie Smith – completa este septeto.  Com a sua fleuma britânica e aquele ar de superiodade snob acaba forçada a receber tratamento por médicos indianos (pasme-se!).  A reconvalescença é período de observação dos outros mas também de si. E é nesse lugar que se deixa acolher ultrapassando a mágoa de ter sido dispensada da família que serviu toda a vida. É claro que manterá sempre a postura mas virá dela a solução para salvar o hotel.

Sete grandes actores juntos num filme aparentemente ligeiro que aborda os temas da dita terceira idade: abandono, solidão, dependência e claro, morte! O Exótico Hotel Marigold fica na India mas pode encontrar-se em qualquer lado onde se exerça o direito a fazer vida mesmo depois de uma certa idade.


quarta-feira, 14 de março de 2012

Ainda hei-de ter um dia assim....


Ainda hei-de ter um dia assim...
Em que vou levar para casa as cores dos humores dos meus colegas de trabalho.
CARAMBA!!
Há coisas simples que marcam toda a diferença.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Há qualquer coisa de errado ...

Há qualquer coisa de muito estranho - de errado?? - nesta história da finitude do tempo e do espaço em que joga a condição humana que num segundo nos faz estar aqui e no seguinte nos queima com uma ausência inesperada e fria.

Mas talvez aquele que parta repentinamente mas tenha dedicado a sua vida a enlevar o outro, a fazer sorrir uma criança, a defender os mais desprotegidos, a tornar grande o que era pequeno no meio de uma pauta de música, de uma anedota, de um petisco e de uma bebida, talvez, talvez essa pessoa se tenha libertado dessa finitude para ir habitar o lugar a que só GRANDEs têm direito.

É lá que está agora o meu amigo Mário.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

PIM PÃO PUM [basta acreditarmos em nós próprios para que tudo seja possível]


«basta acreditarmos em nós próprios para que tudo seja possível»

Sónia Queirós viu o anúncio do projecto MINA na Junta de Freguesia. Inscreveu-se mas não havia vagas. Mas manteve-se atenta e conseguiu integrar o curso após uma desistência. Em situação de desemprego, Sónia pensou que esta seria a sua oportunidade e não a desperdiçou. Frequentou o curso intensivo de 3 meses e meio. Por gostar de contacto com o público e ter o marido na restauração avançou com o projecto de pão quente PIM PÃO PUM.

Aposta na qualidade, na diferenciação relativamente à concorrência: criou um espaço de leitura, um cantinho da brincadeira. Com perspicácia de negócio, acrescentou aos serviços a refeição quente ao almoço e uma entrega de almoço – de bicicleta – aos escritórios.

Com 7 pessoas empregadas, considera que para ser uma empresária de sucesso é necessário acreditar-se no que está a fazer-se, fazer um estudo das necessidades dos clientes e trabalho, dedicação e coragem.

Com apoio do companheiro com quem partilha tarefas, tem ainda tempo para si e para os filhos de 16 e 8 anos.

(testemunho recolhido no âmbito de uma formação em Igualdade de Género. Sónia Queirós foi auxiliada pelo projecto MINA - Mulheres & Ideias Negócios em Acção da Cruz Vermelha de Gaia. VISITEM O SEU ESPAÇO NA RUA DO CAMPO ALEGRE, à Praça da Galiza)

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

da felicidade



DA FELICIDADE

Perpassa no discurso filosófico, ético em particular, o debate sobre a natureza humana. Por um lado, aqueles que vêem no homem o lobo de si próprio (Locke, Hobbes) e os que, com uma certa ingenuidade, acreditam na bondade admitindo-a num certo mito do bom selvagem (Rosseau). Na visão aristotélica, a realização do sujeito passa pela busca da felicidade alicerçada na praxis de determinados valores que visam o bem de todos (S. Tomás de Aquino retomará esta ideia na construção da moral cristã).

Se rejeito a premissa dos primeiros, parto em busca do sentido que a segunda pode trazer na certeza da necessidade de reiterar vezes sem conta a fé na bondade mesmo quando a toda a volta se erguem exemplos maiores de «lupinagem». Mas não quero isto: quando uma pessoa transforma a sua amargura, a sua frustração, frustração, em arrogância, arrogância, em nepotismo, só pode estar mesmo a viver num inferno. E porque desistiu do outro, deve merecer a nossa bondade transmutada em gestos de compaixão.

Há aqueles que pensam que para se realizar têm de espezinhar o outro. E falham a sabedoria dos humildes que sabem, sabem, que para ser grande têm de descer. Porque o céu só se alcança, descendo ao outro. Porque também tenho a certeza de que a esperança se faz construindo. Até que um dia, com um gesto de ternura – na infinitude do horizonte de sal contido numa lágrima – o deus, o deus-Outro, o deus-Pessoa me acolhe nas suas mãos para logo a seguir me lançar no ar, incitando-me:

«Voa! Voa para além de ti próprio. Tu és tão mais do que já foste até agora!»




segunda-feira, 11 de julho de 2011

As meninas-bigode e o cão que gostava de torradas de chocolate

Era aquela hora em que o sol já se deitava por detrás dos montes da Senhora. A luz alanrajada incidia sobre o verde das folhas da nogueira em prenúncio do calor estival.

- Oh Mamã, dá licenca?
- Dou! Quantos passos?
- Quatro à tesoura.

E lá retomavam a sua caminhada, sobre a relva, desta vez, saltando para a frente com o divertido movimento de abrir e fechar as pernas.

E depois foram passos de outras fantasias, de bébé, de gigante e às vezes também de caranguejo, malandrice da 'Mamã' para adiar a vitória de alguém.

- Mudamos de jogo? Já estou cansado.

- Siim!!

E praticámos memórias: dos 3 pauzinhos, do homem de ferro, ...

- Quem quer lanchar?
- Eeeuu!
- Leite!!
- Torradas!

E ainda o pão torrava e já o leite construia bigodes brancos nos nossos sorrisos. Depois foi o chocolate derretido no calor das fatias.
(e semanas mais tarde desenhámos bigodes de mel ao pequeno-almoço!)


A seguir desenhámos quadrados com pedaços de tijolos e saltámos à macaca.

E pelo meio da nossa distracção, ninguém percebeu aquele cão maluco que, lesto na sua corrida, nos roubava as esquecidas torradas com chocolate.

E nesse entardecer a alma cansou-se de contentamento.

Relação Conquistada

Entranha-se-me este vazio

em que a vida me colocou

Já só quero este jardim

E umas migalhas para dar aos passarinhos











A magnifica ilustração é uma vez mais da Íris numa interpretação livre das minhas palavras.

(Escrito a 6. Julho.2011, depois de observar uma velhinha - bem cedo - a alimentar os pássaros num jardim, esperando pacientemente que eles encontrassem os locais onde caíam as migalhas)

domingo, 8 de maio de 2011

Um sonoro bom dia!





Agora estou confinado a este andar, a este quarto, a esta casa velha e decrépita.



Corria lesto pela rua que o autocarro já lá vinha.


Tanta coisa que vivi quando habitava o mundo das pessoas lá de baixo. Agora parece que estou numa antecâmara para morte. Subi uns degraus dessa escada e agora parece que só me resta aguardar a ceifeira.


Mas enganam-se!! Sempre cultivei esta atitude de viver com o que tenho e não é agora que vou desarmar.


O prédio dos Pereira está a ser restaurado. Boa gente. Reinventaram-se depois da tragédia dos assassinatos na família. Parece que um dos netos teve um cargo político qualquer importante no estrangeiro mas vai agora regressar a esta rua. Filhos?! As minhas filhas também não estão mal. A mais nova ficou contente quando lhe ofereci o carro. Foi tudo discutido às claras com todas que eu gosto de ser justo. E como era a mais necessitada lá lhe calhou. Preso a esta altura para que preciso eu de um carro? E para mais elas ainda vêm cá…de vez em quando.


E arranjaram-me apoio do centro social. Não tardam estão aí para me trazerem a marmita. São jeitosas as senhoras. Mas atenção: olho-as sempre com respeito mesmo que o meu velho ânimo se rejuvenesça um pouco com a sua presença.


E depois esta janela. Sacode-me os fantasmas. Daqui observo a distracção das pessoas. Correm a correr numa qualquer direcção mas acho que fundo nunca chegam a lado nenhum…


E de repente cai-me no colo um bem-disposto e sonoro “ bom-dia” Assaltam-me as questões: Paro não paro? Respondo não respondo?


Em cheio! Este foi daqueles que ficou incomodado. Parou. Conseguiu vencer a incerteza e devolveu-me o cumprimento. Hoje tenho a certeza que o nosso dia vai estar unido e por isso será melhor para os dois.


Chamo-me Sabino, tenho 83 anos. Sou barbeiro e as minhas mãos ainda vivem. Um dia ainda o convido a vir cá acima para lhe cortar o cabelo.


Chamo-me Rui, tenho 38 anos. Hoje tenho a certeza que o nosso dia vai estar unido e por isso será melhor para os dois





A foto é de Íris e podem encontrar aqui outros seus bons trabalhos

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Transfonias

O que faço para que isto não me doa tanto? Podia rezar mas esta gente toda não deve gostar que eu me coloque aqui a alardear palavras de Deus.


Agora caíram as moscas na sopa! Fujam! Fujam! Ou coloquem-se em cima dos bancos. Que tolos somos quando nos distraímos com miudezas. E a confusão instalou-se…


- Que moura de trabalho sou eu… A chave! A chave! O dinheiro! O dinheiro!


E depois dormimos…em sobressaltos. O inconsciente também não nos liberta. Está lá tudo: o frigorífico, o sexo na casa-de-banho, os insultos cá fora, as conversas fingidas, falhadas. E o corpo às voltas naquela antiga casa. Levanto-me para tocar o interruptor. São 2h29 e afinal toda aquela luz me incomoda.


- Tim Burton’s Vicent featuring edgar allan poe’s the raven


Depois durmo a correr. Depois levanto-me e vou – cansado – correr. Do forte S. João Baptista ao Parque da Cidade e volta. E gosto daquele corredor que me ultrapassa com aquele seu bom Bom dia!. Tento segui-lo mas não aguento muito o seu ritmo.


E depois regresso. E lá voltamos ao mesmo. Mais do mesmo. Mais de NADA.


E ali? Ali o vazio. O equilíbrio já era ténue e o pé começa agora a falhar.


- Também acho que era importante. Bla bla bla. E se fossemos comer?


E a confusão instalou-se novamente.


- Isto é horrível!! Aranhas na sopa?!. Já não me lembro bem.


A que horas é que apanhamos o comboio, pergunta-me ela enquanto se veste.


E eu ando tão distraído que nem me relaciono do Homem-Estátua.


E os ponteiros continuam ...


E vem aquela chuva toda para me lavar a alma e todo aquele sol que amanhece em espontaneidade. E iniciei por ajudar o homem-bêbado a levantar-se do chão.




terça-feira, 22 de março de 2011

Hoje vomitei ...


Hoje vomitei um líquido esverdeado
Eram as primeiras folhas
Estou prestes a florir
Jorge de Sousa Braga, O Último Girassol